sábado, 15 de fevereiro de 2014

SOBRE A INVEJA


De todos os mecanismos sensoriais humanos, nenhum desperta tanto a inveja como a visão, por onde de logo concluo que ela adentra pelos olhos avançando nas entranhas e provocando a corrosão do caráter, assim entendido como sentimento pessoal através do qual damos valor a nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos avaliem e valorizem.

Soube pelo conhecido jornalista Lucius de Mello que o autor do Tratado da Inveja, manuscrito datado de 1229, um certo frei Leo d’Assisi, frade da Ordem Menor, apelidado pelo próprio São Francisco, do qual era enfermeiro, como Fra Pecorello di Dio (Irmão Cordeirinho de Deus), teria passado longos anos estudando a inveja, feito diversas experiências – algumas bizarras, e concluído que os cegos são menos propensos à inveja que nós que enxergamos tudo.

Quem diria? O olho! Um sistema ótico complexo pelo qual uma imagem do mundo externo é produzida e transformada em impulsos nervosos e então conduzida ao cérebro, mas que também pode trazer consigo os malefícios da inveja, quando então é direcionada ao coração.

Já afirmava o frei que o código da inveja estava na córnea, uma vez que a imagem do que vai ser invejado é captada pela pupila e se amalgama na córnea, caminhando até o cérebro e o coração, que desencadeia, então, infinitas reações, dentre elas o ódio e o desejo de vingança, tornando o invejoso escravo de seus próprios olhos, de forma que, infeliz, não mais consegue olhar nos olhos daquele que é o objeto da sua inveja. Sente-se inferior, imperfeito e em pecado.

O filósofo em educação Gabriel Perissé ensina que, no latim, invidia relaciona-se com a noção de “ver” (videre), acrescentando que “não é à toa que se fala em olho gordo, porque doentes e deformados estão os olhos de quem não se admira positivamente, caso típico dos invejosos”.

Por constituir fonte de outros pecados, a inveja é enquadrada pelo cristianismo como um dos sete pecados capitais. O invejoso deseja ter algo que o outro possui, sem se importar em prejudicar a outra pessoa, para obter esse bem.

Neste sentido o poema épico Divina Comédia, de Dante Alighieri, define a inveja como “um pervertimento ao desejo de privar a outros dos seus” e apresenta os invejosos castigados no Purgatório, com os olhos horrivelmente costurados com arame. Quem, durante a vida, não soube com os olhos apreciar as diferenças, depois da morte não conseguirá enxergar mais nada, muito menos a luz.

A questão é simples quando admitimos que o olhar esteja diretamente relacionado com a inveja porque o invejoso não suporta ver seus próprios defeitos, as imperfeições, as incompetências, o azar que tem. O bem-aventurado acaba sendo um espelho onde se revelam limpidamente as deficiências e as limitações dos invejosos, e é por isso, só por isso, que eles nunca terão talento, nunca brilharão e jamais estarão realizados.

O quadro fica pior quando o invejoso padece da megalomania, ou seja, crê nascido para o poder e a glória, mas está obstaculizado por quem os exercita no momento. Mas, não querendo abusar do tempo, tratarei sobre os megalomaníacos compulsivos em outro e oportuno momento.

Por enquanto, concluo dizendo que considero um verdadeiro lucky man quem tem córneas permeáveis às qualidades alheias, mas porta mente e coração impenetráveis para a inveja; aquele que, por confiar apenas ao seu caráter o cargo de gerente das próprias emoções e reações, simplesmente admira e respeita os bons e bem-aventurados. Muitos, infelizmente, não têm essa boa sorte.

Coincidência ou não, nunca vi tantos invejosos – sedentos por poder – como agora!
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PS: Este post é dedicado a um bom e valoroso colega advogado, a quem tive a honra de conhecer há pouco mais de um ano. Por ser bom, valoroso e principalmente admirado, o colega despertou inveja em pessoas bem próximas dele. São justamente aqueles que agora pretendem ocupar seu lugar. Têm até legitimidade, mas lhes faltam, sem sombra de dúvidas, as virtudes do invejado.

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